A esteira girava lentamente no desembarque do Aeroporto Chales de Gaulle, em Paris. Várias pessoas se deslocavam em torno dela, observando e esperando suas bagagens. Algumas se metiam entre os outros tentando se aproximar da esteira para pegar suas malas dentre as muitas que passavam enfileiradas.

Muitas vieram e se foram e a minha mala não chegou. Eu, que estava tranquila no começo, me impacientei depois e, ao final, fui ficando irritada com a demora, sem perceber que cada vez mais tinha menos gente à espera.
Até que, de repente, eu vi que todos se foram, a esteira continuava rolando lentamente, mas a minha mala não apareceu.
Depois de muito tempo só restávamos nós no local: Eu e meu marido.
Esperamos mais e nada.
Para meu desespero, a esteira parou e minha esperança desapareceu, como a mala…

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A minha mala não veio. Logo a minha! Por que não a dele? Senti um mau presságio…
Foi muito ruim! Que sensação desagradável! Para você entender o que senti, se imagine parado na estação, vendo o trem chegar, desembarcar todo mundo e a pessoa querida que você esperava não veio. O trem segue silenciosamente deixando você e sua tristeza…É uma desagradável sensação de abandono.
Me dirigi ao guichê da Companhia Aérea para reclamar e recebi uma desculpa educada da atendente. Ela me pediu um endereço para entrega da mala, caso aparecesse, informando que a Companhia tinha o direito de aguardar sete dias, para a mala aparecer, e só depois disso é que seria reconhecida a perda e autorizado o ressarcimento.
Eu tinha dez dias de viagem pela frente, em locais distintos e frios e toda a minha roupa, inclusive casacos, peças íntimas, maquilagem e carregador da máquina fotográfica estavam na mala. O desespero tomou conta de mim.
Com o tempo perdido para registrar a perda e nos locomover para o outro terminal, perdemos o voo para Roma e tivemos que comprar um bilhete para embarcar para o destino final, porque o nosso voo já havia partido e era de outra Companhia.
Por sorte, na última hora eu havia enfiado na mala do meu marido um casaco que que ele mesmo havia classificado como horroroso. Foi esse casaco que me salvou.
É lógico que eu me estressei muito e irritei meu marido também, afinal, que mulher na Europa sem suas roupas e acessórios, num frio de -4 graus ficaria calma? Xinguei, reclamei, briguei com a Seguradora, com a TAM, e até com meu marido que não entendia as razões do meu nervosismo, porque, embora relembrasse o tempo todo que meu casaco era feioso, dizia que eu estava exagerando, pois a mala com certeza chegaria no hotel em Roma, no máximo em 48 horas, quando ainda estaríamos naquela cidade. Bastaria, então comprar umas poucas peças de roupas (como se isto fosse muito fácil e rápido para um mulher vaidosa e econômica como eu…e ainda por cima gastar às pressas em euro!). Mas isto não aconteceu. O tempo passava, a mala não chegava, a TAM não ligava, e era eu quem ficava atrás ligando e perguntando, o que me deixava ainda mais irritada.
Meu estresse chegou a um ponto que eu não aguentava mais. Perdi de aproveitar todos os dias em Roma, porque eu saia para ver as coisas, mas não me divertia, tensa com a expectativa e preocupada com o que teria que fazer e os próximos passos a seguir.
Isto foi há uns dez anos, numa época em que telefone e internet na Europa não eram fáceis e eram caros. Então, ou eu ficava no hotel, ou eu tinha que interromper o percurso o tempo todo para ligar, enviar mensagem de cafés e pontos de internet.
Até que percebi que se eu fosse me deixar levar pelo aborrecimento iria perder muito mais, porque era uma viagem cara, eu não sabia se retornaria um dia para lá, então tinha que aproveitar o momento.
Assim, já que nem a TAM nem a Seguradora resolveram nada, “chutei o balde” e fui às compras por conta própria. Para isto contei com a ajuda de um casal de brasileiros, super simpático, que conhecemos na viagem, Paulinho e Heloisa. Ele fazia companhia para meu marido, enquanto nós duas parávamos nas lojas para comprar o que eu precisava. Foi ótimo! Só foi difícil conter o impulso de me vingar da TAM carregando nas compras. Mas como sou honesta e responsável, comprei o essencial para me virar, e fui curtir o resto da viagem, guardando todas as notas documentos e provas para brigar depois na Justiça.
Assim, vivemos momentos de muita alegria e descontração.
Esse desagradável incidente me custou caro: passei quase dez dias sem minhas roupas, comprando aos poucos uma peça por dia, pois havia a possibilidade de receber a mala a qualquer momento; perdi tempo e gastei muito com ligações telefônicas para a Companhia Aérea e para a Seguradora (que tinha o mesmo discurso da TAM); perdi de conhecer a Capela Sistina, no Vaticano, porque no dia da visita tive que ir comprar outras peças, pois o próximo destino seria mais frio; paguei excesso de bagagem na volta porque além da minha mala, tinha também a outra com as roupas que comprei durante a viagem.
Mas isto me trouxe o seguinte aprendizado:

– Procuro identificar bem a mala com etiqueta personalizada, escolho malas de cores diferentes e ou coloco alguma fita ou faixa que a diferencie das outras;

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• procuro não ostentar. Malas que parecem conter objetos de valor, podem ser desviadas ou violadas;

• nunca descuido da minha mala e a deixo sempre ao meu lado e sob os meus olhos;

• evito pegar voo com escala ou conexão, mas se for inevitável, procuro me certificar com a atendente da Companhia aérea onde a mala será recolhida;

• quando o voo aterrissa, assim que possível, me dirijo  à esteira para retirar logo a minha mala e evitar que outra pessoa a pegue por engano;

• nunca coloco todas as coisas numa mala só;

• coloco algumas roupas e coisas minhas na mala do meu marido e algumas dele na minha;

• nunca deixo de fazer o seguro viagem;

• nunca coloco remédios e coisas de valor ou muito importantes na mala que vai ser despachada;

• sempre levo na mala de mão algumas peças de roupas, maquilagens e um casaco a mais, se for para lugar frio;

• Aprendi que, não importa o que os outros pensem, o casaco feioso pode ser o que me aquecerá, na hora do aperto…

Ao final, o aborrecimento com a mala virou um mero detalhe e o que ficou registrado na minha memória foram os momentos felizes, as lindas imagens que vi durante a viagem, as boas risadas que dei com os amigos que lá fizemos e a amizade que alimentamos até hoje com Paulinho e Heloísa.
Quando voltamos, de posse das notas e provas de que dispúnhamos, ajuizamos Ação de Danos Morais e Materiais contra a TAM e recebemos de volta o que gastamos.
É por essa e outras que costumo dizer: “Tudo de ruim que acontece numa viagem, se não for trágico, vira cômico.”
De fato, hoje sempre que encontramos com o casal amigo que conhecemos lá, damos boas risadas das minhas trapalhadas para me virar sem minhas roupas na Europa e até dos aborrecimentos que tivemos.
Ah! Meu marido também foi indenizado pela TAM, pelos aborrecimentos que sofreu comigo na viagem e assim ficamos quites…

Toque final

Bem. Como demonstrei ao longo do post, se perder a mala não perca a cabeça e muito menos a viagem.  Primeiro, convém adotar algumas medidas de cautela, como as sugeridas acima, antes e durante a viagem, para evitar extravio, violações ou danos.

Mas se algum desses infortúnios acontecer, mantenha a calma, adote as providências necessárias, ligue para a Companhia Aérea e ou a Seguradora, deixe o problema com elas. Registre ocorrência na polícia, se for caso de furto e guarde o Boletim de Ocorrência. Guarde também todas as notas, documentos e provas que comprovem o fato, bem como tire fotos, faça vídeos, colete dados de testemunhas e desligue-se do problema. Curta a viagem. Ao retornar, retome as providências e procure  a Justiça, se necessário. Você tem direitos e o primeiro deles é se divertir, então, esqueça os inconvenientes e divirta-se!

 

 

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